A aula passou rápido para mim que estava realmente tentando me concentrar no que o professor dizia, as matérias por aqui eram diferentes das que eu tinha então não seria tão maçante - nem tão fácil - ter de aprendê-las.
O sinal soou e antes de me levantar eu fiquei parada esperando que a próxima coisa acontecesse, mas para minha completa surpresa eu pude ver umas garotas se aproximarem de mim nervosas e sair da sala ao contrário do que eu esperava.
Aquelas só podiam ser Li,Amber e Charlotte, mas elas não vieram falar comigo como deveria ser...Me dei conta de uma coisa que até agora não havia assimilado completamente. Apesar de estar ali, de tudo ser muito parecido com o que eu jogara era diferente será mesmo que já se passou o episódio 15. Além do mais eu já mudara bruscamente a história desde que surgira nela e fui piorando a situação enquanto me aprofundava. Enquanto saía da sala me vi desejando pela primeira vez estar em casa, no lugar ao qual eu pertencia ao invés de estar modificando totalmente meu jogo preferido.
Comecei a pensar naquilo enquanto me encaminhava para o prédio onde seria minha próxima aula. Algumas coisas eram mais exatas e outras totalmente aleatórias.
Cheguei à sala e me lembrei de que aquela era a aula de trigonometria. Eu não era muito boa em matemática, mas sabia que se estudasse conseguiria notas razoáveis então nunca me preocupei muito com aquilo, agora também tinha coisas mais cruciais com que me preocupar, como as pessoas que começaram finalmente a criar coragem de perguntar diretamente pra mim suas curiosidades.
Uma garota ruiva se aproximou de mim,acho que ela era a Iris,ela me deu um abraço e me desejou boas vindas aso colégio,e foi embora.
O Sr. Valner que dava aquela aula fez questão de que eu me apresentasse, mas pelo menos não exigiu que eu fosse à frente da sala e no fundo eu fiquei feliz com sua atitude: me poupava algumas perguntas a mais que muitos ali já pareciam ter elaborado para mim.
Uma garota em especial na sala chamou minha atenção enquanto olhava para mim a curtos intervalos de tempo; era bastante faladeira e gesticulativa enquanto fofocava com a garota à sua frente. Não tive dúvidas de que se tratava de Rosalya que parecia ser ainda mais animada ao vivo.
Quando a aula acabou e eu sai em direção à próxima sala ela se aproximou de mim e se apresentou com vivacidade. Eu sabia que não demoraria muito para que aquilo acontecesse.
Ela perguntou sobre todo o tipo de coisa enquanto tínhamos nossa aula de espanhol e eu me vi começando a ficar irritada com sua falação interminável, pois me lembrava minha mãe com seus discursos diários.
– Então o Brasil é mesmo assim? Sem tribos andando pelas ruas e todo o resto? - Perguntou ela a certa altura e eu me segurei para não ofendê-la com raiva da imagem que ela tinha de meu país.
– Sim é, mas mesmo que se trate de um país com tantas etnias eu poderia afirmar que lá as pessoas são bem mais normais do que parecem ser por aqui - respondi sem me conter esperando que ela não adivinhasse minha verdadeira intenção e acabasse trocando a palavra ‘normal’ por ‘suportável’ que era o que eu gostaria de ter dito.
– Ah entendo - respondeu ela, mas continuou com o falatório sem fim o que significava que na verdade não havia entendido no sentido que deveria.
Finalmente o sinal bateu anunciando o horário do almoço e eu me levantei com pressa de sair dali, torcendo para que Rosa tivesse me achado quieta demais ou sem graça para que me seguisse.
– Você sabe onde é o refeitório? - Indagou enquanto eu guardava as coisas de volta na mochila. Eu realmente não sabia, mas tinha certeza de que teria menos problemas de encontrá-lo do que havia tido com a escola.
– Não, mas eu dou um jeito de encontrar. – Fui me encaminhando para a porta enquanto preferia um milhão de vezes me sentar sozinha do que ao lado da filha que minha mãe nunca soubera que tivera.
– Espere vou com você - disse para meu desânimo.
– Está bem. - Tentei sorrir para não parecer sem educação.
Rosalya continou falando enquanto eu ia com ela para o refeitório.
Caramba! Como aquela menina baixinha poderia ter tantas palavras dentro de seu cérebro?
Cruzamos a porta e ela me puxou para sentar ao seu lado na mesa que eu pude ver já estar ocupada por outros alunos. Ao presenciar aquela cena uma onda enorme de emoção tomou conta de mim. Castiel e Lysandre estavam em algum lugar do refeitório em que eu não olhara ainda. Me vi de repente nervosa demais para recusar o convite de Rosa procurar outro lugar para ficar. Eu queria estar devidamente sentada e calma antes de olhar pela primeira vez para a mesa que eles estariam ocupando.
Muitas cabeças pareciam me seguir à medida que eu movimentava pelo grande salão e aquilo absolutamente não me ajudou a ficar mais calma. Assim que me sentei uma garota de cabelo loiro cacheado,usava uma blusa que parecia um saco de batata virou para mim e disse:
– Annabelle ,então vamos comigo comprar algo para comer?
Não obrigada, eu quis responder, não pretendo ir a lugar algum com você, Amber.Mas sabia que chamaria ainda mais atenção se dissesse aquilo então apenas fiz que sim com a cabeça e me levantei.
Jessica nos seguiu sem nem precisar de convite.
– Então você é a garota que trocou de lugar com a Melody? - Perguntou Amber com um risinho debochado.
– Ao que parece sim. – Não me preocupei em evitar o tom seco em minha voz. Eu não era Melody e se aquela garota começasse a me infernizar ela teria que arcar com as consequências.
– Você não parece ser muito de conversar não é mesmo? No Brasil as pessoas não sabem que é falta de educação ser indelicado com os outros? - Provocou descaradamente.
Quem ela pensava que era para começar a me insultar em menos de cinqüenta páginas de história?
Eu me virei para Amber irritada e prestes a lhe responder da forma que merecia ouvir, mas no impulso não percebi que um garoto se virou com a bandeja para a direção em que eu estava e acabei esbarrando nele.
Foi tudo para o chão e para o meu suéter que ficou imundo por conta da comida que veio de encontro a mim.
Eu estava tão nervosa com Amber que me virei para o garoto disposta a gritar com ele mesmo que a culpa de tudo fosse praticamente minha e foi então que vi quem era.
Fiquei imediatamente sem fala ao encarar seu rosto. A raiva sumiu imediatamente dando lugar à outros sentimentos: felicidade, incredibilidade e acima de tudo emoção por estar fitando sua face. Ele sempre estivera em meus pensamentos e agora eu o contemplava tão de perto... Meu Deus como ele era incrível e desconcertantemente lindo. Nunca em meus melhores sonhos eu chegara a ver sua face tão bem.Mas em meio ao meu momento de devaneio eu não notara a forma com que ele me olhava até que falou pela primeira vez.
– Você é desastrada demais até mesmo para uma novata não é? - Sua voz musical estava cheia de impaciência. Ele estava nervoso comigo porque eu conseguira lhe perturbar duas vezes em um único dia, o que mais eu poderia esperar?
– Ah me des-desculpe - gaguejei surpresa com seu tom de voz mau-humorado. Em minha imaginação ele costumava ser mais educado.
Antes que ele pudesse responder senti um movimento perto de onde eu estava, alguém passou e balançou com força a capa lançando uma brisa que ia da minha direção para a de Castiel.
Eu não desviei o olhar do dele enquanto o observava se retesar estranhamente e sua expressão ficar furiosa, quase agressiva.
Compreendi tudo no mesmo instante. Eu não era mesmo Melody, mas entre as poucas coisas que tínhamos de diferentes é que eu sou muito pervertida,quando tiver uma oportunidade eu irei no verstiário masculino,tirarei fotos dos garotos se trocando e colocarei no teto do meu quarto.
Estávamos no meio de um lugar lotado de pessoas que nos observavam atentas, cochichando. Me virei rapidamente e corri para a porta do refeitório ignorando os olhares que me seguiam.
Eu havia visto um dos banheiros enquanto vinha com Rosalya mais cedo e decidir ir limpar o que conseguia do suéter que usava. Sabia que agora tinha tarefas que nunca tive antes - como preparar a comida, lavar a louça e as roupas – então cuidaria melhor dele quando chegasse em casa. Joguei um pouco de água em cima do pano grosso, mas me arrependi logo que o fiz. Estava muito frio e agora eu congelava por conta da parte molhada.
– Ótimo, o que eu faço agora? - Choraminguei enquanto tirava o suéter e tentava ver a dimensão do estrago. A blusa fina que usava por baixo ao menos ainda estava seca.
Ouvi um barulho às minhas costas e me virei assustada.
– C-Castiel? - Ele estava à minha frente me fitando com a expressão quase torturada.
Ele me seguira até aqui e estávamos sozinhos.Será que eu deveria gritar? Será que alguém ouviria algo antes que ele me silenciasse?Ou será que eu deveria agarra- lo e fazer coisas pervertidas?
Eu tremi enquanto o encarava.
Castiel se aproximou um passo de mim e eu fiquei tensa onde estava. Eu iria morrer sem ao menos ter a chance de descobrir como fora parar ali? Não era justo...
Fechei os olhos e cobri o rosto com as mãos tentando juntar os pensamentos em minha cabeça. Os abri um segundo depois e o banheiro estava vazio. Olhei à minha volta cautelosamente, mas não havia sinal dele em nenhum lugar dali.
A porta do banheiro se abriu com um estrondo e eu pulei de susto, mas logo me recompus quando vi Rosalya entrar acompanhada de outro menina, uma garota magra de cabelos roxos, com a expressão tímida. Reconheci Violett e sorri agradecida de que ela estivesse ali e não Amber.
– Anne você está bem? Estávamos te procurando... Achei que você estivesse chorando por causa do jeito que o Castiel falou com você. - Rosalya estava aparentemente desapontada que meu rosto não revelasse nenhum vestígio de lágrimas apenas de surpresa por tudo o que havia passado esta manhã.
– Eu estou bem - tentei controlar minha voz. - Apenas sem saber o que fazer quanto a meu suéter, ele está completamente sujo e molhado.
– Eu tenho um em minha mochila - disse Violett. - Minha mãe sempre insiste que eu traga roupa reserva para o caso do tempo ficar pior, o que não acontece muito - completou sorrindo. Não precisa ser simpática comigo Violett, eu já gosto de você, pensei,na verdade entre todas as personagens femininas a Violett era a minha preferida.
– Obrigada de verdade - respondi sorrindo de volta.
Violett trouxe o suéter para mim e se apresentou. Eu fingi não saber seu nome e fiquei conversando com ela e Rosalya enquanto colocava a nova roupa e dava um jeito de secar o que podia da outra para que não molhasse demais minha mochila.
Depois nós voltamos ao refeitório e eu consegui comprar algo para comer sem muitos problemas.Castiel claramente não voltara e eu fiquei imaginando se ele estaria à matar aula.
Não fora dessa forma que eu imaginara meu primeiro encontro com Castiel. Na verdade nenhuma das formas que eu sonhara com este momento me envolviam presa dentro da história da forma tão real que eu parecia estar agora.
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